terça-feira, 12 de abril de 2011

Sonho de cachorro

O cachorro está no canto do quintal, roendo o seu osso recém-desenterrado debaixo do pé de acerola. O osso é seu tesouro, seu segredo escondido de todos. Se alguém descobre aonde foi enterrado, o cão monta guarda e morde a canela do pirata que tentar roubá-lo. Desenterra o osso e foge, procura outro esconderijo embaixo da terra. Próximo a casinha de cachorro abandonada, do pneu velho, do portão ou da roseira. Qualquer lugar – buraco fundo – pode ser um bom esconderijo.

E após algum tempo, o cachorro ainda está roendo o seu osso precioso. Alguém se aproxima e o canino fica em alerta, olha de soslaio e mostra os dentes homônimos. Tensão. Pronto pra luta em defesa do seu tesouro. O mais sensato recua. Aquele que cutuca e tenta roubar o osso com o pé ou com a mão, sente a mordida do cão. Mas sempre tem quem pegue um cabo de vassoura pra mexer sem ter por quê com o pobrezinho que morde o osso, quieto no seu canto. Pobrezinho nada! O cachorro não tem medo de vassoura, rodo ou espingardinha de chumbinho. Crava o canino!

Esse que se aproximou foi sensato, foi embora. Passado algum tempo, o cachorro está sem o osso. Que fim teve, não sei (estará enterrado em algum outro lugar?). Mudou de canto, o bicho. Dá uma ou duas voltas em torno de seu eixo imaginário, estica as patas dianteiras e deita. Orelhas baixas, as pálpebras ficam pesadas, movimento rápido de olhos (têm disso, os cachorros?). Enfim, ele pega no sono.

Muitos de nós que vemos o mundo em tecnicolor têm sonhos em branco e preto. Os cachorros, que enxergam em preto e branco, não poderão ter sonhos coloridos. É assim a realidade deles, são assim seus sonhos.

Não é bom acordar um cachorro imerso em sono profundo. É como tirar-lhe o osso. Alguns podem reagir da mesmíssima forma – morder seu calcanhar, latir, entre outras reações inesperadas. Reage assim o cão porque sabe que acabou de perder algo que era para si muito valioso. E o pobrezinho – agora, sim, pobrezinho – não pôde fazer nada para defender-se. Seu sonho – seu osso – foi roubado de forma covarde por alguém que não vai (e nem poderia) usá-lo.

Todo despertar é perda.

terça-feira, 1 de março de 2011

Abacagim (receita COMPLETA)

(O texto que segue foi publicado no primeiro número da Revista Asterisco, do PET-Letras da UNESP de Araraquara. Por erro de diagramação ou erro da gráfica, uma linha ou duas não foram impressas. Aqui, posto o texto completo, coerente, sem cortes abruptos. Este foge da proposta do blog, mas assim mesmo achei interessante publicá-lo, para aqueles que gostam do que eu escrevo e quiserem conferir o texto completo; e, principalmente, pelo meu ego)

Ao ler um romance, muitas vezes encontramos referências a pratos, doces ou bebidas que nos deixam com água na boca e despertam nossa curiosidade. Queremos saber as receitas dessas delícias, mas raramente elas nos são fornecidas. Nesta seção esses segredos da culinária literária serão revelados e, neste número de estreia, compartilho com vocês a receita de uma bebida tão embriagante quanto a obra de onde ela foi retirada. Nas “estranhas páginas” de Lolita, do escritor russo Vladimir Nabokov, encontramos, mais de uma vez, referência ao “Abacagim” (pin, no original: Pineapple + Gim), bebida favorita do narrador-personagem Humbert Humbert, professor de meia idade, sarcástico e desprezível, padrasto e amante de Dolores Haze (Lôla, Lô, Lolita).

Abacagim: Bebida de alto teor alcoólico à base de gim e suco de abacaxi, apreciada sem moderação por H. H., tanto nos momentos de angústia quanto em suas celebrações pessoais e solitárias, numa volúpia de felicidade extrema (o momento da morte acidental de Charlotte Haze, mãe de Lolita). O autor – imagino eu, o próprio criador da bebida – apenas cita os ingredientes, não dando maiores detalhes sobre o seu modo de preparo. Os ingredientes são basicamente suco de abacaxi, gim e gelo, mas algumas variações podem acrescentar leite condensado, ao gosto do beberrão consumidor. O modo de preparo é simples, mas também pode variar a gosto. Aconselho que a bebida seja preparada da seguinte forma: Em um recipiente – não aconselho copos pequenos – acrescente uma dose de gim para cada duas pedras de gelo e 200ml de suco de abacaxi. Mexa levemente os ingredientes com o que tiver em mãos (em último caso, o dedo indicador mesmo). Está pronto o seu Abacagim Clássico, para ser tomado sozinho. Se você estiver com uma galera, podem ser mantidas as proporções e o modo de preparo, nas devidas medidas para todos; mas há ainda outra forma de preparar a bebida, ideal para grandes quantidades: Coloque todos os ingredientes dentro do liquidificador e bata. Se preferir, aumente a quantidade de gim e acrescente um pouco de leite condensado (principalmente se preferir uma bebida mais doce, uma “batidinha”). Está pronto o seu Abacagim Frozzen, próprio para se beber com os amigos, num dia quente.

Talvez H. H. preparasse seu drinque em outra proporção – uma mistura de meio a meio entre suco de abacaxi e gim, ou ainda mais gim. Essas medidas podem variar. Na falta de um abacaxi para fazer o suco, aconselho suco pronto de caixinha ou polpa de abacaxi congelada – neste último caso, deve ser adotado o modo de preparo com liquidificador.

Apreciem seu Abacagim com moderação, à parte do exemplo dado pelo seu criador Humbert Humbert.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ímpeto

O homem que mata
Aviso não dá
Empunha sua arma
E mata!

Ao homem que ama
Abismo não há
Empenha sua alma
E o faz...

domingo, 29 de agosto de 2010

Gatilho

She is not a girl who misses much…”
E parou, constrangido (não sabia os próximos acordes). Ela, então, expressou certa decepção em seu olhar. Ele partiu para o refrão, em sol maior, numa tentativa suicida de salvá-los. Ela sorriu – puxou o gatilho – e foi como se a terra tivesse voltado a girar, após um breve instante de paralisação total do tempo. Ele sorriu também. Ambos quase riram. Cantaram juntos. E ela nem se importou com a desafinação do garoto – bang, bang, shoot, shoot.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Natalense

As horas queimam, remam, lembram
Que o dia ainda não acabou.
A areia há de guardar
Nossas pegadas à beira da praia,
Mas o dia acaba...
O tempo finda e o infinito mar
Há de apagar as lembranças deixadas
–frágeis marcas –
Negativos corroídos que não se restauram
(Os olhos fotografam!)

Cada suspiro: Sopra o vento do dia infinito;
É da memória o Natal perdido.

sábado, 5 de junho de 2010

Presente

Se eu pudesse ir à lua, eu compraria duas passagens.
Duas... de ida.

terça-feira, 18 de maio de 2010

yes

Trilha sonora: Mind Games, John Lennon.

Sobretudo e chapéu pretos
Uma grande sombra esguia
Deslizando lentamente
pela galeria
de artes.

Os olhos sob os óculos
de armação fina e lentes redondas
Miraram a maçã prosaica
Apple, lê-se
Uma obviedade inesperada

O fruto proibido
O pecado concebido
Mas a fruta vulgar e descontextualizada
É ela somente ela
E ainda assim
Arte. Arte?

Vaga devagar, divaga
E resposta alguma espera encontrar
Na arte ou na realidade
No sublime ou no vulgar
Nas paredes da galeria de artes
... Onde faltam pregos.

Adiante uma escada
Como tantas outras escadas
Carregando seus simbolismos
Sua superstições
Seu medos
“Seria a arte-popular”?

Vencendo o medo e o receio
Procura as respostas e faz a função
Da forma – sobe os degraus.
E no fim, a resposta
Diante dos olhos, porém ilegível
Através da lente de aumento
suspensa, Lê-se:
Yes.




"Yes is the answer and you know that for sure"