segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ímpeto

O homem que mata
Aviso não dá
Empunha sua arma
E mata!

Ao homem que ama
Abismo não há
Empenha sua alma
E o faz...

domingo, 29 de agosto de 2010

Gatilho

She is not a girl who misses much…”
E parou, constrangido (não sabia os próximos acordes). Ela, então, expressou certa decepção em seu olhar. Ele partiu para o refrão, em sol maior, numa tentativa suicida de salvá-los. Ela sorriu – puxou o gatilho – e foi como se a terra tivesse voltado a girar, após um breve instante de paralisação total do tempo. Ele sorriu também. Ambos quase riram. Cantaram juntos. E ela nem se importou com a desafinação do garoto – bang, bang, shoot, shoot.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Natalense

As horas queimam, remam, lembram
Que o dia ainda não acabou.
A areia há de guardar
Nossas pegadas à beira da praia,
Mas o dia acaba...
O tempo finda e o infinito mar
Há de apagar as lembranças deixadas
–frágeis marcas –
Negativos corroídos que não se restauram
(Os olhos fotografam!)

Cada suspiro: Sopra o vento do dia infinito;
É da memória o Natal perdido.

sábado, 5 de junho de 2010

Presente

Se eu pudesse ir à lua, eu compraria duas passagens.
Duas... de ida.

terça-feira, 18 de maio de 2010

yes

Trilha sonora: Mind Games, John Lennon.

Sobretudo e chapéu pretos
Uma grande sombra esguia
Deslizando lentamente
pela galeria
de artes.

Os olhos sob os óculos
de armação fina e lentes redondas
Miraram a maçã prosaica
Apple, lê-se
Uma obviedade inesperada

O fruto proibido
O pecado concebido
Mas a fruta vulgar e descontextualizada
É ela somente ela
E ainda assim
Arte. Arte?

Vaga devagar, divaga
E resposta alguma espera encontrar
Na arte ou na realidade
No sublime ou no vulgar
Nas paredes da galeria de artes
... Onde faltam pregos.

Adiante uma escada
Como tantas outras escadas
Carregando seus simbolismos
Sua superstições
Seu medos
“Seria a arte-popular”?

Vencendo o medo e o receio
Procura as respostas e faz a função
Da forma – sobe os degraus.
E no fim, a resposta
Diante dos olhos, porém ilegível
Através da lente de aumento
suspensa, Lê-se:
Yes.




"Yes is the answer and you know that for sure"

sábado, 24 de abril de 2010

Bombeiros

“Vou ser bombeiro quando crescer”, disse o menino a sua mãe. “Não pode falar assim, menino”, disse a mãe, “Você não sabe o que vai acontecer no futuro. Pode, sim, dizer eu quero ser um bombeiro quando crescer, mas não pode afirmar isso. Não podemos prever o futuro ou fazer planos. Há quem chame essa bobagem toda de sonhos, mas guarde os seus sonhos para a noite, moleque!, é o que eu digo. Falando nisso, já é hora de ir deitar e ter os mais lindos sonhos, com os anjinhos. Você pode ficar pensando muito antes de dormir, ficar imaginando que é um bombeiro e, assim, talvez você sonhe que é um bombeiro, mas não é certo, assim como não é certo que você será um bombeiro quando crescer. É ainda mais difícil você dizer hoje que vai ser um bombeiro quando crescer e de fato isso acontecer, do que ficar imaginando que é um bombeiro antes de dormir e acabar sonhando que é um bombeiro. Agora vá dormir! Sobe já pro seu quarto”.
“Tá, mãe”, respondeu o menino. Subiu para o seu quarto e não pensou em caminhões vermelhos, mangueiras gigantescas, prédios em chamas, uniformes legais, descidas pelo escorregador ao soar o alarme de incêndio, essas coisas. Só pensou no que sua mãe falara. Depois desse dia, o menino nunca mais falou em ser bombeiro quando crescer. O menino nunca mais teve sonho algum.
.
Alguns anos depois, um fim de tarde, um operário tira a camiseta, sobe na bicicleta e sai pedalando a caminho de casa. Assobia uma canção. É o melhor no assobio – julga o próprio – e o assobio é a melhor parte do seu dia. O homem pára num mercadinho a poucos quarteirões da sua casa e compra um presente na sessão de brinquedos (“Embrulha pra presenter?”, “não precisa, obrigado). Ao chegar em casa, vai para o quarto do seu pivete e lhe dá um caminhãozinho vermelho de plástico. O menino abre um largo sorriso – de orelha a orelha. Seus olhos brilham... “Eba! Eu quero ser um bombeiro quando crescer”.

“Não queira...”

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Amor Eterno

Lê-se

BRE
VE

Grafados na eternidade de uma árvore

.

sábado, 27 de março de 2010

Síndrome de Estocolmo

“Crimes de assassinato é o que conta a maior parte dos que aqui estão. Aqueles que não o fazem por sua própria boca é porque tiveram suas desgraças (ou glórias) expostas nas páginas cinzas dos jornais, sob a visão pouco poética e anti-romântica de um jornalistazinho qualquer de camisa xadrez e óculos de lentes e armações grossas; ou uma jornalista de saia curta, decote profundo e um belo de um currículo que ela senta sobre a mesa do redator-chefe enquanto rumina um chiclete de tutti-frutti para depois fazer um balão rosa surgir de sua boca e estourar em um big-bang de perdigotos. Ah, como eu desprezo toda a gente! Os hipócritas que escondem seus corações. E o desprezo é a arma do sábio, como bem disse Petrônio. Deixe-mo-los de lado.
Confesso, tenho medo. Os outros presos sabem quem eu sou, mas não saberão que sou eu até que um carcereiro de malicioso meio-sorriso venha contar-lhes, o que não tardará a acontecer. E você, recente vinda ao mundo, apesar de seus vinte aninhos, ainda não deve imaginar o que será de mim. Sabe, eu preferiria a morte, mas abraço a desonra com a esperança quase ilusória de ver-te novamente. Suportarei tudo isso senão para pintar suas unhas, comprar-te bombons e flores, lavar teus cabelo, beijar teus pés e me ver, velho e acabado, refletido em teus olhos que são belos. Não viverei, apenas deixarei o tempo passar por mim e matar-me lentamente, dia a dia. O tempo... A mais mortífera de todas as drogas.
Como disse, de minha boca não ouvirão nada sobre o meu crime. Deixe que toda a mídia, impressa ou televisiva, se incumba da tarefa de mostrar ao mundo o monstro que sou. Não converso com os outros presos. Leio o dia inteiro. À noite eu costumava tocar a minha gaita, mas fui gentilmente forçado a parar com isso. Não apreciam a melancolia do meu blues por aqui.”
Ela apenas ouvia. Nenhuma interjeição. Havia um vidro entre os dois. Acabado o tempo, ela deixou o telefone por onde ouvia a voz daquele homem com quem convivera durante catorze anos, levantou-se e foi acompanhada por dois guardas até a porta de saída. Não olhou para trás, e ele não esperou que ela realmente o fizesse. Quando pisou no basalto, levou as mãos à face e começou a chorar. Não tinha certeza do que sentia. Amor? Talvez. A única certeza que tinha era a de não poder viver sem aquele condenado.

domingo, 21 de março de 2010

Del-Rey

Estou pisando fundo no acelerador do nosso Del-Rey branco. Dados de pelúcia púrpuras, bancos remendados, revestimento de onça sobre o volante, toda a decoração original do pátio de Carros Usados. O relógio digital – de números azuis, que fica sobre o retrovisor – está parado. O tempo, nunca pudemos pará-lo. Bem quiséramos fazê-lo tantas vezes trancados no quarto, no décimo ou no quinto; ou ainda agora, a cada pausa em quartos baratos de motéis de beira de estrada. Se pudéssemos parar o tempo... toda essa fuga seria desnecessária. México é o nosso destino. Buscamos outro hemisfério, novos horizontes. Um novo tempo, o presente.
Continuo pisando fundo no acelerador do nosso Del-Rey branco, a caminho do México. Podemos abrir um sebo, uma loja de vinis e livros... ou de armas, como fantasiei tantas vezes em meus pensamentos, idealizando um mutualismo com o narcotráfico. Beberemos tequila todas as noites antes de deitarmos, e engoliremos o verme, como os verdadeiros mexicanos de sombreiro e bigodão.
Passamos por uma estrada sinuosa, e sou obrigado a aliviar a pisada. O Del-Rey branco lembra aquele com o qual o meu avô costumava me buscar na porta da escola, quando eu contava pouco mais de uma década, talvez. Os números azuis do relógio digital – este sim funcionava – marcavam dez e quinze quando eram dez horas. Hoje, não contamos mais o tempo. Nenhum relógio, nenhuma hora certa, o Del-Rey nos diz que é sempre hora de partir. É hora de mudarmos de endereço. Agora, Pista livre. A estrada sempre nos leva ao futuro. O nosso lugar, chamamos de México. Nosso meio de chegar até lá, o Del-Rey – onde o relógio digital de números azuis não funciona.
Estou pisando fundo no acelerador do nosso Del-Rey branco.