“Crimes de assassinato é o que conta a maior parte dos que aqui estão. Aqueles que não o fazem por sua própria boca é porque tiveram suas desgraças (ou glórias) expostas nas páginas cinzas dos jornais, sob a visão pouco poética e anti-romântica de um jornalistazinho qualquer de camisa xadrez e óculos de lentes e armações grossas; ou uma jornalista de saia curta, decote profundo e um belo de um currículo que ela senta sobre a mesa do redator-chefe enquanto rumina um chiclete de tutti-frutti para depois fazer um balão rosa surgir de sua boca e estourar em um big-bang de perdigotos. Ah, como eu desprezo toda a gente! Os hipócritas que escondem seus corações. E o desprezo é a arma do sábio, como bem disse Petrônio. Deixe-mo-los de lado.
Confesso, tenho medo. Os outros presos sabem quem eu sou, mas não saberão que sou eu até que um carcereiro de malicioso meio-sorriso venha contar-lhes, o que não tardará a acontecer. E você, recente vinda ao mundo, apesar de seus vinte aninhos, ainda não deve imaginar o que será de mim. Sabe, eu preferiria a morte, mas abraço a desonra com a esperança quase ilusória de ver-te novamente. Suportarei tudo isso senão para pintar suas unhas, comprar-te bombons e flores, lavar teus cabelo, beijar teus pés e me ver, velho e acabado, refletido em teus olhos que são belos. Não viverei, apenas deixarei o tempo passar por mim e matar-me lentamente, dia a dia. O tempo... A mais mortífera de todas as drogas.
Como disse, de minha boca não ouvirão nada sobre o meu crime. Deixe que toda a mídia, impressa ou televisiva, se incumba da tarefa de mostrar ao mundo o monstro que sou. Não converso com os outros presos. Leio o dia inteiro. À noite eu costumava tocar a minha gaita, mas fui gentilmente forçado a parar com isso. Não apreciam a melancolia do meu blues por aqui.”
Ela apenas ouvia. Nenhuma interjeição. Havia um vidro entre os dois. Acabado o tempo, ela deixou o telefone por onde ouvia a voz daquele homem com quem convivera durante catorze anos, levantou-se e foi acompanhada por dois guardas até a porta de saída. Não olhou para trás, e ele não esperou que ela realmente o fizesse. Quando pisou no basalto, levou as mãos à face e começou a chorar. Não tinha certeza do que sentia. Amor? Talvez. A única certeza que tinha era a de não poder viver sem aquele condenado.
sábado, 27 de março de 2010
Síndrome de Estocolmo
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2 comentários:
Você escreve bem!! Desde o primeiro ano... hahaha sem ironias, meu caro. beijão!
"ela senta sobre a mesa do redator-chefe enquanto rumina um chiclete de tutti-frutti para depois fazer um balão rosa surgir de sua boca e estourar em um big-bang de perdigotos."
alguém um dia leu isso pra mim. Me lembro bem.
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