O cachorro está no canto do quintal, roendo o seu osso recém-desenterrado debaixo do pé de acerola. O osso é seu tesouro, seu segredo escondido de todos. Se alguém descobre aonde foi enterrado, o cão monta guarda e morde a canela do pirata que tentar roubá-lo. Desenterra o osso e foge, procura outro esconderijo embaixo da terra. Próximo a casinha de cachorro abandonada, do pneu velho, do portão ou da roseira. Qualquer lugar – buraco fundo – pode ser um bom esconderijo.
E após algum tempo, o cachorro ainda está roendo o seu osso precioso. Alguém se aproxima e o canino fica em alerta, olha de soslaio e mostra os dentes homônimos. Tensão. Pronto pra luta em defesa do seu tesouro. O mais sensato recua. Aquele que cutuca e tenta roubar o osso com o pé ou com a mão, sente a mordida do cão. Mas sempre tem quem pegue um cabo de vassoura pra mexer sem ter por quê com o pobrezinho que morde o osso, quieto no seu canto. Pobrezinho nada! O cachorro não tem medo de vassoura, rodo ou espingardinha de chumbinho. Crava o canino!
Esse que se aproximou foi sensato, foi embora. Passado algum tempo, o cachorro está sem o osso. Que fim teve, não sei (estará enterrado em algum outro lugar?). Mudou de canto, o bicho. Dá uma ou duas voltas em torno de seu eixo imaginário, estica as patas dianteiras e deita. Orelhas baixas, as pálpebras ficam pesadas, movimento rápido de olhos (têm disso, os cachorros?). Enfim, ele pega no sono.
Muitos de nós que vemos o mundo em tecnicolor têm sonhos em branco e preto. Os cachorros, que enxergam em preto e branco, não poderão ter sonhos coloridos. É assim a realidade deles, são assim seus sonhos.
Não é bom acordar um cachorro imerso em sono profundo. É como tirar-lhe o osso. Alguns podem reagir da mesmíssima forma – morder seu calcanhar, latir, entre outras reações inesperadas. Reage assim o cão porque sabe que acabou de perder algo que era para si muito valioso. E o pobrezinho – agora, sim, pobrezinho – não pôde fazer nada para defender-se. Seu sonho – seu osso – foi roubado de forma covarde por alguém que não vai (e nem poderia) usá-lo.
Todo despertar é perda.

Um comentário:
engraçado.
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